Apresentação proferida no âmbito do XIII  ENCONTRO  AP

«O Psicanalista e a Psicanálise na Contemporaneidade . Encaixes e Desencaixes».

Mesa- «Encaixa e (des)encaixa: AS PLURALIDADES DA PSICANÁLISE»

 

  Manuela Porto

Da  Ilusão  à  Complementaridade

Agradeço o convite que me foi feito para pensarmos conjuntamente neste XIII Encontro da AP, sobre o ‘Psicanalista e a Psicanálise na Contemporaneidade ‘e nesta mesa -‘Encaixa e (des)encaixa: As Pluralidades da Psicanálise’.

É uma honra e um prazer podermos pensar juntos.

Começo por citar René Kaes, como introdução:

‘A extensão do campo das práticas psicanalíticas acarreta problemas, porque a evolução das descobertas clínicas e as indicações em relação ao tratamento, implicam modificações técnicas. Mas também porque, de cada vez que isto acontece, a psicanálise é agitada, fica em crise, e para a ultrapassar, ela tem de recompor o conhecimento do seu objecto específico, o inconsciente e os seus efeitos de subjectividade. Estas extensões tiveram como consequência transformações na concepção dos seus modelos práticos e teóricos’.

Do tema deste Encontro, e desta Mesa, onde poderíamos tratar muitos temas, elegi alguns tópicos que organizei em breves capítulos, ou caixas, para utilizar esta terminologia.

Designei a 1ª, que é ,sobretudo, uma caixa de perguntas, por:

-‘…qual a relação entre a singularidade do ser e a Polis?’

Esta é uma pergunta que o Prof Amaral Dias se colocava e assim formulou várias vezes.

Quanto a mim, uma pergunta cada vez mais fundamental tornar-se objecto da nossa reflexão como psicanalistas.

-Como é que o indivíduo, e considerado nas suas diferenças identitárias, se liga, pensa, intervém na comunidade, na sua, estritamente entendida, e nos grupos que a compõem, ou no mundo mais lato? Como é influenciado e sujeito de preocupação com as questões comuns e com o dever ser do bem-estar na cultura e na civilização?

-E no que ao psicanalista diz respeito, no que a nós nos diz respeito nesta profissão?

Parece que se nos impõe uma ampla e partilhada reflexão sobre todas as implicações desta relação entre o individuo e a Polis.

-E em situações extremas, como foi a Pandemia, como são as guerras a que temos estado a assistir, de forma mais próxima ou mais distante, perante a ameaça de uma guerra mais generalizada na Europa?

_ Como é que trabalhamos com assuntos que também nos tocam, alguns muito directamente?

-Como é que os tempos actuais, com todas as suas vicissitudes, nos impactam a nós, nos trazem exigências pessoais e profissionais, e os acompanhamos, a nível individual, ou de grupo, ou nos casais e nas famílias que nos procuram?

-Como tratamos a transferência? Como é que o facto de termos vivências comuns afecta a nossa contra-transferência?

Foi aos filósofos que coube, desde a Gécia antiga, a função de pensar/falar sobre a Polis, e a missão de levar cada um a reflectir sobre quem é, sobre a sua identidade, como individuo, como grupo, ou mais largamente, como aquilo que em tempos designei por macro-grupo social, tentando corresponder ao que Freud designava por ‘massas’.

Não creio que este papel caiba menos ao psicanalista; mesmo que não escreva sobre este tema especíico, aparecem diariamente ao analista, conteúdos que implicam uma reflexão com o paciente, a nível subjectivo, intersubjectivo e transsubjectivo, que o levará ao reforço da sua identidade e à própria possibilidade de construir a sua subjectivação.

 

2ª caixa:

TEXTO e CONTEXTO

Toynbee , teorizador da História, estudou a questão de como evoluem as sociedades. Ele afirma que nas épocas de decadência, como seria a nossa, nos ciclos da história q analisa, se verifica uma espécie de crise em que coexistem todos os valores, todas as ideias, de muitos tempos, religiões, costumes, técnicas, rituais, etc, numa síncrese muito confusa.

É mais um desafio para o Psicanalista, que se vê diante de muitas caixas, temporais, lógicas, culturais, por vezes com os seus conteúdos misturados.

Depois, segundo este autor, poder-se-ía entrar num outro ciclo da História.

Isto faz-me muito lembrar a noção de crise, e como de uma crise se sai pela criatividade e organização, ou se cai na confusão.

A esta altura, lembrei-me muito de Lipovetsky, e das defesas que descreve, na nossa Era, contra o vazio, entre as quais o sobreinvestimento do Eu. São dele, estas palavras:

‘Quando os ritos, costumes e tradições agonizam, quando tudo flutua num espaço paródico, aumentam a obsessão e as práticas narcísicas, as únicas a serem ainda investidas de uma dignidade cerimonial.’

_Como é que as alterações do contexto social e político, em que vivemos, alteram, ou podem alterar o nosso Texto teórico e a nossa práxis?

Kaes, psicanalista e teórico da Psicanálise, estudioso de Freud e de alguns outros autores post-freudianos, que nos é contemporâneo, fala-nos, entre muitas outras coisas, da necessidade da criação de uma Metapsicologia, a que chamou de 3º tipo- uma Metapsicologia da Intersubjectividade, que nos permite abrir a uma renovação da prática.

E de que’ o dispositivo, de acordo com o pedido feito, condiciona o desenvolvimento da Metapsicologia, criando massas de conhecimento que, de algum modo, ganham consistência no sentido ontológico e se tornam como disciplinas com conteúdo científico independente, para além daqueles conteúdos de que partiram’.

Para falarmos sobre o tema deste Encontro e desta Mesa, teremos de falar de Epistemologia, de Metapsicologia, de Teoria da Técnica, entre outros assuntos. O que aqui não é o tempo, embora fosse um lugar.

Mas antes de mais, vou apresentar a 3ª caixa:

 

A ORIGEM DAS COISAS

No que à Psicanálise de Casal e Família diz respeito, como uma das extensões da Psicanálise, ela foi-se constituindo no tempo, encaixando vários autores, vivências e teorias, provindas de vários tempos e lugares. Também desencaixando outras convicções.

E, se falamos de Psicanálise, isto remete-nos, antes de mais, a Freud.

È importante a historização em Psicanálise. Por exemplo, em ‘Psicologia das Massas’ tem origem o tema do Grupo e o do Casal e Família; em ‘Totem e Tabú’ o da transmissão geracional.

Num 2º momento (lógico, não estritamente temporal), aos post- freudianos- Klein, Winnicott, Green, entre vários outros.

Num 3º, aos psicanalistas contemporâneos-  André Rouffiot, Nicolas Abraham, Maria Torok, Gérard Décherf, Jean-Pierre Caillot, Évelyne Granjon, Piera Aulagnier, José Bleger, René Kaes, Alberto Eiguer, Ezequiel Jaroslavsky, Irma Morosini, Anna Nicolò, Eduardo Grispòn e muitos outros.

No que ao Grupo diz respeito, lembramos Anzieu em França, Bion em Inglaterra, Pichon-Rivière na América latina. Também os desenvolvimentos posteriores, que em Portugal, na linha de Foulkes e Anthony deram origem à escola portuguesa de Grupanálise, com Eduardo Luís Cortesão.

Remete também para o estudo da cultura, nas suas variantes, impossível de separar da transmissibilidade.

Se tivéssemos de definir os principais temas estudados ao nível da Psicanálise de Casal e Família, destacaria de modo muito lato, os temas : Vínculos, Transmissão Geracional, Grupo, Intersubjectividade.

 

A COMPLEMENTARIDADE

Onde acaba a Ilusão Grupal sai da caixa a Complementaridade. Ou, pode saír.

De tudo o que foi dito anteriormente, depreendemos que há muita reflexão a fazer conjuntamente pelos psicanalistas das várias escolas ou instituições, mantendo e especificidade e a identidade da intervenção de cada um. Cada uma destas instituições tem ferramentas conceptuais e técnicas próprias, que supõem uma formação específica.

Lembrou o Prof Coimbra de Matos que ‘o trabalho do Psicanalista é psicanalisar’.

Mas, que implicações isso terá?

Não trabalhou apenas nas suas sessões- deixou-nos felizmente muitos livros, plenos de pensamento psicanalítico, e humano, em termos mais gerais.

Parece que o papel que estava reservado aos filósofos, desde a Antiguidade, depois de tantos encaixes e desencaixes entre várias disciplinas, se estendeu também ao Psicanalista na contemporaneidade. E essa reflexão não é a de uma escola, é a da Psicanálise, através do que pensam também as suas próprias extensões e pluralidades, numa visão de complementaridade- a do ser humano perante o real que se nos impõe.

_Quais são as questões e problemas comuns que poderão estar presentes neste diálogo entre instituições?

Impõe-se uma reflexão conjunta sobre toda a realidade que analistas de várias escolas e pacientes com várias indicações, vivenciam em comum.

Isto levar-nos -á a produzir pensamento que, necessariamente cobrirá desde as questões do que designámos por polis, até questões práticas de organização, passando pela relação com outras áreas de estudo, como a Antropologia, as Neurociências,e sobretudo, a Ética e a Bioética.

O pensamento constrói-se em diálogo – da minha pate, estou disponível para que aconteça.

 

Lx, 12 de Abril de 2024

Manuela Porto